Sobre a Antecipação

26 05 2011

O tempo, como o calor, dilatava-me a pele. Gotículas de suor e tédio escorriam sobre o meu  corpo estático – extático – e a minha respiração desenhava ritmos no ar, compassos quatrenários de previsibilidade e elipses. O meu olhar repousava sobre o branco infinito e acima de mim, mas o tecto era tudo o que eu não via. Esferas de ar, nuvens de vapor, o quarto suavemente arredondado a gosto da temperatura. As paredes em sudorese, prenhes com o cheiro a sexo. E eu, qual escarro de vela ardida, derretia sobre a cama, os dedos como cordas correndo até ao chão.

Perante as minhas orbes estufadas, cegas, manchas negras dançavam sincopada ainda que previsivelmente, procurando rasgar-se do ar que respiro. A sua dança era a dança das baratas em fuga. Os seus passos eram o arraste tímido de um samba trazido a público pela primeira vez. Tão maquinal quanto indissociável de milénios de prática. Era o abate do teu peso sobre calcanhares teimosamente expressivos. Tu, na cozinha, com o bailado incessante da tua mente.

A minha pele desliza sobre a colcha, agora, deixando um pastoso rasto de secreções, eternamente desejosa de se destruir contra o chão. Alvo é o vapor que cerra o interior do quarto, uma enorme parede cimentando claustrofobia em mim. Logo se erguem as costelas em protesto, abrindo e empalando caprichosamente o ar em meu redor. A indiferença é uma máscara. E o calor forma gotas e borbotos brancos, remetendo – penso, divertido – para sémen.

Síncope. Tédio. Elipse. Uma valsa de desprezo e desprendimento dá início ao último andamento (vens na minha direcção), e o meu canal auditivo – um puzzle de cartilagens nervos e sangue barrado na almofada – bombeia derrotismo por entre as minhas certezas. As costelas tornam-se pó. Os meus órgãos internos escorregam como peixes mortos, e o coração abandona o seu trono no lado esquerdo do meu corpo.

Nada mais mereço do que a queda. Num mundo de incoerências e falhas, atrevi-me a ancorar o meu cepticismo ao porto da tua solidão. Sou um nada passageiro escorrendo do teu leito.

Abre-se a porta, uma escotilha no vácuo do universo. O vapor escoa. As paredes abortam. O meu corpo seca e o meu olhar reflecte a luz do corredor.

Sorris-me

Anúncios

Acções

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: